… Minha poltrona era a 1 Dê.
Eu nunca tinha voado na primeira fila. Aí, para piorar, tirando eu e o cara da 1 Cê, as três primeiras fileiras do avião, o mais novo deveria ter uns 105 anos.
Ou seja, seis vezes três dá dezoito. Com uma média de 120 anos, teríamos 1.940 anos. Somando as idades deles com a minha, chegaríamos ao tempo dos três reis magos na adolescência.
“Táquêô… Se a morte trabalhar com meta de produtividade, só com essas três primeiras filas, já bateu a quota do mês.”
Eu imaginava a morte com uma prancheta nas mãos, analisando:
“O passageiro da 3 bê é só semana que vem… Mas, o que é uma semaninha?”
Para a minha alegria, entraram um padre e uma freira.
Quer ver a tripulação de qualquer companhia aérea do mundo, se benzer todinha? É ter um padre ou uma freira no voo deles… Rê, rê rê rêrê – se benzer para se prevenir de um padre e uma freira… percebem a ironia disso?
E aí, logo no meu voo, tinha que ter um padre E uma freira.
Tem como piorar?
Sim, piorou. Entraram dois caras, no estilo. Estilo sou do talibã… com aqueles turbantes, a barba à la Cláudia Ohana…
Só quem nasceu na década de 80, ou antes, vai entender a referência.
Enfim, os caras estavam falando em alguma língua que não era inglês, francês, espanhol, italiano, alemão ou português.
Nessa hora, me arrependi de ter armado a confusão no raio X. Vai que na pressa o pessoal do raio X foi displicente…
Tive a convicção de que era a minha hora. Dezessete idosos com uma média de 120 anos cada, um padre E uma freira…
Vamos voltar um cadim no tempo, para entender o que aconteceu:
Cheguei no aeroporto, as 5 horas da manhã (fui dormir às três e quarenta e cinco da manhã) Em dois minutos já havia feito o check in e seguido para o portão de embarque.
Para a minha surpresa, havia no mínimo umas 300 pessoas (Não, não estou exagerando. Do lado de dentro a fila estava em ziguezague e do lado de fora, ela dava a volta por trás do elevador e seguia até a escada rolante do lado oposto).
Vesti o meu melhor sorriso e cumprimentei a guarda do portão de embarque:
“Bom dia, moça, você poderia me ajudar? Meu voo é as seis e dez da manhã e pelo tamanho da fila, não conseguirei embarcar.”
Com a simpatia de um rinoceronte de TPM, ela respondeu:
“Sinto muito. Não há nada que eu possa fazer.”
“Mas moça, meu voo é as seis e dez da manhã. Tem mais de 300 pessoas na fila. Vou perder o voo e terei que pagar uma diferença para pegar outro.”
“Se o senhor tivesse chegado mais cedo…”
“Mais cedo? São cinco e sete da manhã. Tempo de sobra para embarcar, se não tivesse uma fila desse tamanho.”
“Isso é um problema seu com a companhia aérea.”
Preocupado, voltei ao guichê da TAM e ouvi da mocinha:
“Lamento senhor, mas isso é um problema do aeroporto. Não há nada que eu possa fazer.”
“Mas você não poderia ir até lá e conversar com eles?”
“O senhor consegue imaginar o caos que seria, se todas as companhias aéreas tentassem fazer os clientes delas furar a fila? E quem ficaria aqui, fazendo o meu trabalho?!”
“Não faz parte do seu trabalho, cuidar do bem estar e do embarque dos seus passageiros?!”
“Não. Não sou babá.”
Me controlando para não explodir, calmamente (o mais calmo que consegui ficar), perguntei:
“E se eu perder o voo? Vocês me colocarão em outro, sem cobrar nada?”
“Claro que não!” — Ela respondeu, com uma indignação, como se eu tivesse perguntado algo absurdo.
“Mas se eu perder o voo, a culpa não será minha. E eu quem tenho que pagar?”
“É um problema seu com o aeroporto.”
“Muito agradecido. Bom dia para a senhora.” (Mentalmente, eu xinguei até mesmo a avozinha cadeirante dela.)
Marchei, decidido, até a fila. Sei que em uma fila grande, basta gritar uma reclamação – (naquela vibe “sou barraqueiro”), que esse gritinho, vira um tumulto generalizado.
A turma xinga até a mãe do juiz e, nem é um jogo de futebol. É igual riscar um fósforo e jogar na gasolina.
E aí, rapidinho o pessoal trata de resolver a vida do fósforo, tirar ele logo dali, para acabar com o foco de incêndio.
Só que, eu notei um rapaz xavecando um guarda do portão de embarque. Me aproximei e ouvi a conversa:
“Mas moço, eu estava vindo de longe. Três horas de viagem, só que o o ônibus quebrou. O meu voo para Salvador sai as seis.”
“Bem, você pode conversar com as pessoas na fila. Se elas deixarem você passar, tudo bem.”
Na cara de pau, eu me meti na conversa:
“O meu caso é o mesmo.”
“Bem, conversem com as pessoas. Se elas deixarem, vocês podem passar.”
O Baianinho abaixou a cabeça, não sei se ele era tímido, mas, ia desistir, dando-se por vencido.
Eu agarrei no braço dele, tomei fôlego e falei alto para o pessoal da fila:
“Pessoal, bom dia! Desculpem incomodar. O voo da gente sai daqui a pouquinho e com o tamanho da fila, a gente não vai conseguir embarcar. Houve um problema com o ônibus, ele quebrou na estrada, e aí, a gente só conseguiu chegar agora. Normalmente, estaríamos dentro do horário normal de embarque. Já despachamos bagagem e tudo. Só que, essa fila não é uma situação típica. Então, para a gente não perder o nosso voo, será que vocês poderiam deixar a gente passar na frente?”
Você deve estar pensando: “Mas que mentiroso, cara de pau.”
Porém, percebam que em momento algum eu disse que EU estava no ônibus, ou que ME atrasei por causa dele.
Ficou a critério de cada um a interpretação.
Tecnicamente falando, não conta como uma mentira.
“Cambada de folgados…” – Murmurou um senhor que estava um pouco mais atrás na fila.
Me irritei, apontei o dedo em riste na cara dele e indignado lancei:
“Folgados não, meu senhor.
O senhor ouviu que o ônibus quebrou? Problemas acontecem. Nunca teve um problema no seu carro? Nunca pegou um engarrafamento? Nunca chegou em cima da hora em um voo, por motivos alheios a sua vontade? Espero que o mesmo não aconteça com o senhor. E, se acontecesse, e eu estivesse aqui, eu teria o maior prazer em ajudar você, deixando passar na frente!”
Ok, fui cara de pau.
Mas, tecnicamente, eu estava defendendo a honra do cara que estava no ônibus. O ônibus dele quebrou na estrada. E se não quebrou, a mentira foi dele, não minha.
Por mais incrível que pareça, o pessoal da fila nos apoiou e eles deixaram a gente passar na frente.
Enquanto passava pelo raio x, percebi que só tinha um funcionando.
Tinham quatro máquinas de raios X.
Uns trezentos passageiros.
Funcionários e funcionárias do aeroporto, iam e vinham de um lado para o outro, com copinhos de café nas mãos, conversando e rindo.
Fósforo e gasolina lembram? Falei bem alto:
“Caramba pessoal, que falta de empatia, de ética e civilidade de vocês. Umas 300 pessoas para embarcar, uma fila monstruosa, três outras máquinas de raio x e vocês aí, bebendo cafezinho e rindo?!”
Uma funcionária que estava mais perto de mim, me olhou de cima abaixo, deu de ombros e entrou em uma portinha.
O sangue ferveu. “Ah é, sua rá pá ri ga?! Minha vingança sará má lí grina!” (Bento Carneiro, Vampiro Brasileiro – Personagem do humorista Chico anysis, de antes dos anos 2000)
Estufei o peito e gritei:
“Essa é a sua resposta? Dar de ombros e se esconder em uma sala? Vou denunciar para a ANAC, EMBRAER, INFRAERO.
Vou publicar a foto dessa fila e de vocês tomando cafezinhos despreocupados, nas redes sociais. Falta de respeito de vocês! Quem perder o voo vai até polícia aqui do aeroporto para registrar um B.O. Quem vai ter que resolver a vida da gente, tem que ser o pessoal daqui do aeroporto. Não podemos ficar com o prejuízo.”
Ok. Admito: Foi sacanagem com o pessoal do aeroporto, eu ter feito aquilo. Eu já tinha garantido meu embarque. Mas, era mais sacanagem ainda, todas aquelas pessoas perderem seus voos. Comecei o tumulto generalizado.
Os guardas ficaram loucos. A turma toda começou a reclamar e a gritar. Algumas pessoas tiravam fotos. A mocinha saiu, injuriada, resmungando algo sobre não ser o horário dela. Embarquei e deixei a rebelião de presente para eles.
Entrei no avião.
E aqui, retomamos a nossa história principal:
… Minha poltrona era a 1 Dê. Eu nunca tinha voado na primeira fila…
“Não amor! Você já …
Tive a convicção de que seria a minha hora. Dezessete idosos com mais de 120 anos cada um, um padre E uma freira…
Antes da decolagem, a comissária de bordo passou com uma cestinha com balas. Aquelas balas molinhas de caramelo. Peguei uma, abri e coloquei na boca.
Primeira mordida, minha boca encheu d’água. Quem recheia uma bala de caramelo com maracujá? Pior, não avisa. Detesto maracujá.
Troço enjoativo. Esperei a comissária voltar e pedi água.
“Senhor, vamos decolar agora. Assim que as luzes de desafivelar o cinto se apagarem, eu pego sua água.”
Não custava nada. Um enjoo com àquela porcaria adocicada. Eu estava na 1 Dê. Se eu esticasse o braço, poderia me servir sozinho. O que custava ela ter me dado a porcaria d’água?
Para tirar o gosto ruim da boca, abri um saquinho de 200 gramas de M e M que eu tinha comprado e comecei a comer de um em um.
O problema foi que a bala de maracujá me deixou enjoado. Então, o M e M me dava um alívio passageiro.
O avião começou a decolagem e sacolejava mais que caminhão antigo subindo ladeira.
Salivando cada vez mais e eu, brilhantemente, empurrava um chocolate goela abaixo.
Assim que liberaram desafivelar o cinto, corri para o banheiro. Tentei de todas as formas, mas não teve jeito
VOMITEI UM arco íris de M e Ms.
Me senti aquela porcaria daquele MEME que vomita um arco-íris…
Bochechei, lavei o rosto e voltei para a minha poltrona.
“Você poderia me arrumar um fone de ouvido?”
“Senhor, fones de ouvidos são para voos acima de três horas. Este voo é de duas horas e quarenta minutos.”
De próxima, acho que viajo para o Rio com escala no Acre. Assim teria fone e filme.
O vídeo deles era um looping infinito de uma animação da TAM. Mesmo sem ouvir, eu já sabia de cor.
Voltei a comer M e Ms, para tirar o gosto ruim da boca.
O bom das poltronas da primeira fileira, é que você não fica com a cadeira da frente apoiada no seu joelho.
O ruim, é que você não consegue esticar as pernas.
O senhor da poltrona 1F, ia ao banheiro a cada 5 minutos. O problema é que mesmo com espaço para passar dançando valsa, ele se agarrava à parede, como um alpinista com a corda arrebentada se agarraria à montanha.
E neste processo, ele levava uns 2 minutos. Calculem aí: Dois minutos “garrado” na parede, mais uns 5 no banheiro, outros 2 minutos “garrado” na parede para voltar ao lugar, dava a ele 3 minutos sentado antes de querer ir ao banheiro novamente.
Como se não bastasse o velhinho com complexo de homem aranha, atrás de mim estava um francês.
Ele começou um diálogo com o cara da 1C:
“… graisse … avec la chaise … de moi”
Uêpa, graisse é gordo que eu sei. Avec la é com, chaise é cadeira… de moi significa de mim.
Esse f d p me chamou de gordo.
“Mas pai, toutes les chaises de l’avion sont inclinables.” Entendi algo como: pai, as cadeiras são reclináveis.”
O pai perdeu a paciência e, começou a empurrar a minha poltrona com os dois joelhos. E enquanto ele fazia isso, resmungou alguma coisa bem longa, que a única coisa que consegui compreender foi:
“Blá blá blá, whiskas sachê (referência antiga à um comercial em que o dono falava um monte de coisas e o gatinho só entendia: whiskas sache)… Merde brèsilienne.”
Aí não. Brasileiro de mer… não! Nem a pau!
Se nem a Alemanha disse isso da gente, depois de 7 X 1 na copa, não seria esse Zé Ruela de 2 X 1 na copa de 1998 que diria.
Levantei, olhei dentro dos olhos dele, apertei o botão, levantei a cadeira e em seguida a reclinei novamente, continuei de pé fuzilando com os olhos.
Ele se encolheu na cadeira. Sentei de volta.
De pirraça, eu não levantei a cadeira nem na hora do lanche, mesmo com a comissária de bordo pedindo: “Ele me chamou de brasileiro de merda e sacudiu a minha cadeira na maior ignorância.”
Começou o serviço de bordo. Saquinho de torrada, queijo polenguinho, suco de laranja e café.
O velhinho lagartixa pediu: água, suco de laranja, e dois copos de café.
O FDP praticamente viajou no banheiro e vai beber essa quantidade toda de líquido? Por que não se muda para o banheiro de uma vez, seu infeliz…
Minha vingança contra o coroa francês foi mortal.
Comecei a calcular:
Pizza de calabresa acebolada na noite anterior. Dois copos de achocolatado no café da manhá, junto com mais duas fatias da pizza, balinhas e mais balinhas de tamarindo e os M&M’s…
“Arrudiado” de pessoas um pouco mais velhas.
Então, deixa eu explicar: Se tiver um gordo no recinto e alguém peidar, a culpa sempre vai cair para ele.
Mas, se tiver uma pessoa idosa e um gordo, um peidinho sempre será atribuído ao pobre velhinho.
Imagine então eu, que estava cercado por 16 deles?!
O primeiro que soltei, esquentou o assento da cadeira toda. Cheguei a me preocupar de ter sido um daqueles que vêm acompanhados. Por sorte, não foi.
Na hora que subiu o futum, fiz uma careta, tapei o nariz e larguei um sonoro: “Nuóssa!”
Confesso que pensei em parar, assim que senti o cheiro. O troço estava tão barra pesada, que nem eu aguentei.
Os comentários foram muito divertidos:
“Quem fez isso, está com o fiofó fora da data de validade já há dois anos.”
“Comeu hamburguer de carne de urubu com molho de chorume.”
“Estava acontecendo o parto de um gambá.”
“Alguém cagou um cadáver.”
“Dissolveu os pelos do meu nariz.”
E, o melhor de todos:
“Se você peidar assim falando ao telefone, a pessoa do outro lado da linha desmaia!”
Enfim, eu me divertia com os comentários.
Mas resolvi prosseguir com minhas suaves bufas, pois, mesmo que agredissem meus pulmões, o francês merecia isso.
E se um padre, uma freira, os dois caras e uma multidão de “xóvêns” que participou da primeira passeata organizada por Maomé não derrubaram o avião, não seriam alguns punzinhos que iriam derrubar, né?
Tive que me segurar, quando a coroa do meu lado, perguntou ao marido (o velhinho lagartixa): “Meu bem, vai no banheiro que eu acho que você se cagou de novo.”
Enfim, um a um, fui esvaziando meu estoque de bufas. E, quanto mais eu soltava, mais pareciam surgir.
Os comissários saíram todos da cozinha da frente.
Vingado.
Feliz da vida eu jogava angry birds, até que esposa do mijão, resolveu recolher a bandeja para o lugar dela. As bandejas da primeira fileira, são retráteis nos braços das cadeiras…
Teria sido bem bacana da parte dela, se ela tivesse me avisado antes para eu tirar o braço, ao invés de ter dado um beliscão no meu antebraço, com a bandeja para comer.
O puxão foi tão forte que, saca quando um lençol agarra na “giroleta” da máquina de lavar roupas e vai repuxando ele todo? Então, tipo isso, só que com a pele do meu corpo, até a altura do ombro.
No reflexo, além de suave: “AI!!!” Que foi ouvido pela galera do avião inteiro – E algum gaiato soltou a pérola: “Pronto, enfartou um com os cheiros dos peidos.”
Eu soltei o celular para empurrar a bandeja e livrar meu braço.
Senhoras e senhores da plateia, quando soltei o celular, eu consegui a façanha de deixar ele cair exatamente no buraco da bandeja da minha cadeira.
Nã é possível! O destino só podia estar de perseguição comigo.
Olhei para trás, já na esperança de os caras realmente serem sequestradores ou homens bombas, para ver se tinham alguma previsão da bomba… Quase que eu disse:
“Então… Sabem aquela bombinha marota? Agora seria uma boa hora…”
Depois de uma batalha com a participação de todos os comissários, o filho do francês, eu e até o copiloto tentando retirar o telefone de lá, uma mãe topou emprestar o filho dela de 6 anos, para enfiar o bracinho e pegar o celular.
Quando o guri estava tirando o celular, o taxímetro urinário do velhinho lagartixa não deu trégua (Só poderia dar nisso. O lazarento toma 300 litros de líquido e tem uma bexiga de 30 ml).
Pessoas idosas e crianças, quando querem passar, vão se enfiando pelo meio das pessoas, como se não houvesse amanhã.
Daí, quando ele forçou a passagem, esbarrou no moleque e o celular caiu de novo.
Taquê ô paríu!! Chega né? Nova operação de resgate. O moleque tinha apenas alguns minutos até que o mijão voltasse.
Finalmente, o moleque pegou o celular, ofereci para ele, os 140 grama de M&M’s que sobraram (para a minha felicidade ele recusou).
Os comissários começaram àquela leitura no inglês perfeito de praxe:
“leidisixampimansfenquiúforfláing… blá blá blá, whiskas sachê, blá blá blá… Chegaremos lá em 28 minutos…”
Ou seja, mais 28 minutos de vingança e tortura com o francês. O que para mim passou muito rápido, para ele deve ter durado uma eternidade.
Quando eu estava desembarcando, a comissária de bordo me puxou para falar: “Nossa moço, eu estava com uma pena de você. Tentei sinalizar para você ir lá para trás, por causa do cheiro, mas você não percebeu. Não sei como você aguentou.”
Jura que você sinalizou lá de trás para eu ir lá para trás? Atrás de mim? E eu não vi? Mas menina, hein… – pensei, da maneira mais sarcástica possível.
Ao invés disso, respondi: “Estava complicado mesmo. Mas, ainda bem que o voo já acabou.”
A!!! Se ela soubesse…